
“Esta terra é minha, esta terra é nossa!” Após bradar essa frase, o cacique Ajuricaba, que havia sido amordaçado pelos colonizadores portugueses, lança-se nas águas do Rio Negro, desaparecendo para sempre.
A aldeia Manaós está destruída, toda a Confederação do Rio Negro está dispersa e com muitas baixas, a floresta está em chamas e, mais uma vez, o inimigo venceu. E assim nossa narrativa histórica se encerra. No entanto, este não é o fim de nossa história; é apenas um capítulo, no qual me arrisco a dizer — contrapondo-me à visão histórica derrotista empregada à campanha de Ajuricaba — que, nesta empreitada, não sofremos uma derrota, mas sim uma vitória, pois nem todas as conquistas são feitas de resultados imediatos e facilmente mensuráveis, e longo prazo, a única conquista realmente valiosa é estar do lado certo da história, o lado daqueles que não apenas proclamam, mas que vivem e resistem em nome da justiça. Neste capítulo da vasta história amazônica, nosso povo se une em nome de um ideal comum: a liberdade.
Nosso povo, que outrora guerreava disperso, naquele momento deixou razões étnicas e territoriais de lado por algo muito mais importante e que só poderia ser conquistado de forma coletiva. Naquele momento, a Amazônia mostra do que é feita, mostra que não se rende, que prefere a morte à escravidão e que sua floresta é capaz de parir heróis e heroinas, pois aquele que é capaz de sobreviver nessas terras sagradas não se entrega a subornos nem escolhe o caminho mais fácil.
Somos amazônidas e devemos agir como tal. Pois o colonizador ainda espreita e, de forma parasitária, e hoje em dia ainda mais sofisticada, ainda se nutre de nossas riquezas e nossa força de trabalho, nos cerca com suas propagandas, nos escraviza com ares de modernidade, tira nossa identidade e nos torna marginalizados, nos tratando como imigrantes refugiados dentro de nosso próprio país. Como se o nosso verdadeiro país se chamasse Atraso e como habitantes de lá só nos resta a submissão, a obediência cega em nome de manter a harmonia desse sistema que a todo momento sacrifica um de nós para continuar gerando lucro para os descendentes dos saqueadores que chegaram em caravelas e depois todo tipo de embarcação, transporte até o momento que essa terra também se tornasse o berço de uma corja de parasitas e seus lacaios fieis que hoje usando terno e gravata gerem o sofisticado mercado de escravos moderno fascista e neoliberal.
Mas,está na hora de apenas Ajuricaba emergir das águas escuras; mas todo o sentimento e ação que originou Confederação do Rio Negro! Em defesa de nossos Rios Sagrados subiremos em canoas e avançaremos com todo tipo de transporte e por todos os meios nos poremos à batalha.
Sabemos que nossa luta inicia-se no campo interior durante o processo de reencontro com o coletivo. Por isso, engajados na procura de nossa identidade, buscamos o conhecimento, a formação e a participação política ativa e decisiva. Nossos valores se expressam por nossa cultura e nossas ações, que não se prende a barreiras cronológicas e territoriais, pois, como os antropófagos revolucionários de 1922, temos como proposta o universalismo cultural como meio de redescobrimento de nós mesmos. Pois, assim como a Confederação do Rio Negro não aceitou a escravidão e Angola Janga (Quilombo dos Palmares) não permitiu um “acordo” de “liberdade” em troca de que seus irmãos negros voltassem às senzalas, temos a compreensão que apenas quando não houver mais nenhum escravizado é que seremos verdadeiramente livres.
Lutamos pelo fim de todas as formas de opressão, nosso pensamento é internacionalista, não limitado a fronteiras, sejam elas terrestres, marítimas ou, muito menos, imaginárias. Acreditamos que todos fazemos parte da mesma família chamada humanidade; porém, sabemos que devemos honrar o solo que pisamos e a vida que nos rodeia e para isso combater todos os inimigos externos a nossa causa e principalmente os internos que se manifestam nos mais diversos desvios que distorcem o potencial coletivo da humanidade em luta desenfreada pela satisfação individual, seja na busca do prazer terreno proporcionado pelo dinheiro ou na promessa do prazer eterno do pós morte cristão.
E para que não sejamos apenas mais um joguete nas mãos dos poderosos, é necessário, primeiramente, armar-se com o conhecimento, não aceitar mais viver no senso comum, deixar de lado paradigmas e opiniões vazias e passar a usar do conhecimento e propriamente do acúmulo do conhecimento como as bases organizativas da resistência frente ao sistema capitalista, fazendo da teoria a luz que ilumina o caminho da ação.
“Esta terra é minha, esta terra é nossa!”.
Por nossos territórios, por nossos corpos e nossas memórias. Ergo a Nova Confederação do Rio Negro.
Lucas Ultracultura - Artevista, Escrevedor, Xamã Urbano, Revolucionário e Idealizador do movimento a Nova Confederação do Rio Negro.
